segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O CD do mês de Setembro



Há 13 faixas neste álbum dos Xutos & Pontapés, facto que apenas revela que o grupo de Tim, Kalu, Zé Pedro, Cabeleira e Gui não deve ser supersticioso. Neste conjunto de canções o que ressalta, de facto, é um par de certezas: os Xutos querem recuperar uma voz mais interventiva, assumem a bagagem de três décadas de rock 'n' roll e quando escrevem já só pensam numa coisa - no palco!
Seria legítimo esperar que a comemoração de três décadas de actividade levasse os Xutos a revisitar a energia primordial que serviu de fundação - no sentido que a engenharia civil atribui a essa palavra - a esta longa carreira. E a verdade é que se sente nalguns momentos do álbum que a economia punk e a gestão eléctrica herdada desses primeiros tempos ainda representa um papel no plano criativo dos Xutos: "Tétris Anonimus", "Sensação" e sobretudo "Classe de 79" recorrem a esse espírito e são obliquamente punks.
Depois há as letras: "Estado de Dúvida", "Quem é Quem" ou "Sem Eira Nem Beira" - tema em que um presidiário interpela um "senhor Engenheiro" - quase nos fazem esperar mais farpas de quem já não tem nada a perder e tem ainda tanto para ganhar. Mas vão-se privilegiando as melodias e as palavras que parecem apenas servir a canção não vão revelando significados mais profundos.
Mas também há auto-crítica por aqui - ou apenas honestidade: no tema "O Falcão", Tim confessa " acho que já fui como tu / um puto inquieto e cheio de fome " e depois remata " por tudo o que eu fiz / não consigo voltar atrás ". Compreende-se, mas neste Xutos & Pontapés sente-se que dar um passo atrás poderia ter sido mais artisticamente interessante do que dar muitos em frente.
Há riscos tomados neste álbum, o que é coisa boa: Pacman surge em registo spoken word no tema "O Sangue da Cidade" e obriga-nos a pensar em Adolfo Luxúria Canibal, e Kalu assume "Sem Eira Nem Beira" sem temer fragilidades, o que é de homem. De resto, e assumindo que uma solitária audição pode não revelar todas as variantes deste álbum, sente-se demasiada contenção quando são as guitarras acústicas ou os tempos mais dolentes a marcar alguns dos temas. Desejava-se explosão, mas descobre-se lume brando.

Rui Miguel Abreu, in Blitz, 16/04/2009

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